Dia dos Pais: Por que isso é assunto das empresas?

16/08/2017

A conversa de diversidade de gênero precisa incluir os homens

Há pouco tempo, a palavra paternidade figurava quase que exclusivamente no contexto judicial dos testes de DNA e nos programas populares de TV que usavam teste de paternidade como isca para aumentar a audiência. Acontece que os tempos estão mudando e o prisma da conversa hoje converge para homens que querem exercer a paternidade de fato, extrapolando o papel de provedores. Nessa nova conversa, mais um convidado importante tem que se sentar à mesa de discussão: as empresas.


Por lei, são 5 dias (corridos) de licença paternidade e só!

Imaginemos João, 32 anos casado com Priscila, ambos pais de primeira viagem. Os dois são profissionais bem formados, ambiciosos e dedicados às suas carreiras cujas rendas somadas são importantes para o padrão de vida familiar que estão construindo. Os dois trabalham em empresas com boas práticas de recursos humanos, mas que nesse assunto fazem nada além do que a lei manda: 4 meses de licença maternidade para Priscila e 5 dias para João.

Quando saírem da maternidade, 3 dias depois do nascimento do bebê, João terá mais dois dias para aprender a ser pai e curtir esse momento, um dos mais significativos na vida de um ser humano. João terá recebido um kit muito legal de presente de sua empresa e pode até tirar alguns dias de férias e estender um pouco esse primeiro período de cuidados ao bebê e a sua esposa. Receberá parabéns dos colegas no seu retorno e depois, vida que segue. Viagens que voltam, jornadas de trabalho que seguem iguais e na mentalidade corporativa, a única coisa que mudou para João é que agora ele tem mais é que trabalhar, pois tem um filho para criar.


O que fazem as empresas?

Ainda são poucas as empresas que praticam a licença maternidade estendida de seis meses e mais raras ainda as que adotam licença paternidade estendida de 20 dias, muitas delas ainda mirando somente os incentivos fiscais concedidos às empresas cidadãs.

Uma busca rápida no site Love Mondays, em que funcionários avaliam seus locais de trabalho, vai te mostrar funcionários e ex-funcionários falando positivamente de empresas que já possuem essa política de licença paternidade estendida.

Porém nada comparado ao grupo seleto e muito inspirador de empresas que vão além do padrão. Mastercard, Facebook, Twitter e Google são exemplos bastante emblemáticos de empresas que bancam do seu orçamento licenças paternidades de até 5 meses para seus colaboradores. E isso, no Brasil.

Veja o vídeo e conheça a história do Amauri. Ele teve 20 dias de licença paternidade e conta como isso fez diferença na relação dele com seu filho, Guilherme.


Ainda vemos empresas vivendo no século passado

Na contramão, você vê empresas que são grandes marcas ainda replicando pressões negativas que coíbem os homens de exercerem a paternidade.

Ouvimos recentemente que em uma das maiores empresas do país, que homens da área operacional não reportam o nascimento de seus filhos. Como a remuneração variável será descontada nesses 5 dias afastados, esses profissionais com baixa remuneração precisam se dedicar a trazer o dinheiro das fraldas e perdem a chance de estar ao lado dos filhos em seus primeiros dias de vida.

Ouvimos também o caso da siderúrgica em que os funcionários ouvem de seus colegas que são "a mulher da casa" ou que "não tem pulso firme em casa" quando precisam se ausentar para cumprir alguma responsabilidade com os filhos.

Voltemos a João e Priscila. Nos primeiros meses, o problema da ausência de João será mascarado pela disponibilidade de Priscila. Mas a falta de licença paternidade reflete a cultura de uma empresa que não acredita que cuidar de filho é papel do pai e logo outros desafios aparecerão para João. Priscila vai voltar a trabalhar, precisa dividir responsabilidades, também quer avançar profissionalmente. João quer estar presente. João quer ser pai. A empresa de João talvez não caiba no modelo de vida desse casal. E esse é o tipo de casal que teremos cada vez mais em nossa sociedade.


Recentemente, no LIDERABETA Men, nosso Programa de Liderança Inclusiva para homens, ouvimos vários casos de executivos que buscaram recolocação em empresas onde hoje eles podem colocar a visita ao pediatra na agenda sem ser questionados. Também ouvimos relatos cheios de ressentimentos de executivos que perderam a infância de seus filhos porque estavam muito ocupados sendo "os homens da casa". Felizmente, ser o homem da casa está se tornando uma coisa diferente hoje em dia.

As empresas que já perceberam isso estão se destacando para atrair os melhores talentos. Existem muitas medidas que podem ser tomadas pelas organizações nessa direção e a licença paternidade estendida (ok, comece com 20 dias...) pode ser um primeiro passo que simboliza essa intenção.

*Renata Moraes e Daniele Botaro