Gênero e Interssecionalidade: o que precisamos saber?

04/03/2022

Segundo dados de 2019 da ONU, as mulheres representam pouco menos da metade da população mundial. Fora o gênero, essas 4 bilhões de pessoas possuem um número infinito características distintas entre si. Então será que só falar de gênero é o suficiente? Nesse texto, te apresentamos o conceito de interseccionalidade e como ele é crucial para avançarmos nas pautas de diversidade, inclusão e equidade de gênero.


Batizado pela americana Kimberlé Williams Crenshaw, a interseccionalidade surgiu como conceito na luta feminina década de 1980, quando a pesquisadora tratava assuntos relacionados a violências vividas pelas mulheres não brancas nas classes desfavorecidas nos Estados Unidos. Hoje o conceito - que também pode ser reconhecido pelo termo "interconectividade" ou "identidades multiplicativas" - é fortemente utilizado por pessoas pesquisadoras, sociólogas, e grupos minorizados que discutem as causas relacionadas a gênero.

Na prática, do que se trata a interseccionalidade? 

A interseccionalidade é definida como "formas de capturar as consequências da interação entre duas ou mais formas de subordinação" ultrapassando questões que antigamente olhavam somente ao gênero. A proposta da interseccionalidade é que se entenda a mulher considerando sempre todas as outras características que a atravessam. Assim, entendemos que a vivência e as lutas das mulheres negras, PCDs, indígenas, LGBTQIAP+, 50+ e várias outras se diferem entre si.

São muitas as lutas? A resposta é sim!

Um exemplo básico para entender essas diferenças é pensar na lógica geográfica. Uma mulher nascida no Brasil, vivencia problemas bem diferentes de mulheres nascidas em países islâmicos, assim como mulheres europeias sofrem questões diferentes de mulheres africanas.

O mesmo acontece com características pessoais das mulheres. Mulheres brancas têm uma vivência distinta das mulheres negras, assim como uma mulher com deficiência enfrenta desafios que mulheres sem deficiência não enfrentam.

Nesse sentido, a filósofa e escritora Djamila Ribeiro traz uma reflexão: "Não é porque a gente é oprimida que a gente não pode oprimir também."

Para a escritora, a lógica imperativa do privilégio pode ocorrer até mesmo na voz de outras mulheres e, portanto, é importante olharmos as diferentes situações de opressão diárias. Em um trecho para a uma entrevista para jornal EL PAÍS Brasil, Djamila também provoca a reflexão de como as pautas de grupo minorizados precisam se conectar: "Se eu luto contra o machismo, mas ignoro o racismo, eu estou alimentando a mesma estrutura". Na prática, devemos entender que a lógica da violência se estrutura em espécie de camadas, onde a condição de vulnerabilidade é estabelecida a partir delas.

E no Brasil?

Trazendo essa pauta para nossa realidade, podemos afirmar que esse é um conceito muito presente na sociologia brasileira, uma vez que estatisticamente no Brasil, assim como em outros países subdesenvolvidos, as pautas relacionadas a gênero, racismo, homofobia sofrem bastante impacto devido à forte cultura patriarcal e consequentemente machista vivenciada por gerações. Infelizmente somos o país que mais mata população trans no mundo, e proporcionalmente somos os maiores consumidores de pornografia do gênero.

E agora, como podemos ampliar a conversa sobre interseccionalidade?   

Entendendo a importância do conceito e da sua discussão para a ampliação da diversidade e equidade, trazemos algumas dicas de como seguir falando sobre interssecionalidade!

  • Deixe esse debate sempre em aberto!

Falar sobre esse assunto é uma maneira de abrir um debate sobre a opressão vivida por mulheres. Esse espaço de fala e escuta deve ser sempre incentivado. A dor de uma mulher não necessariamente é a da outra.

  • Seja uma pessoa ouvinte. 

Não sobreponha a sua fala sobre a de outras mulheres. Entenda que existem vivências distintas e que é necessário escutar argumentos e pontos de vista.  

  • Reconheça os estereótipos de Gênero 

Entenda que os estereótipos de gênero atravessam a todas as mulheres mas, mesmo assim, possuem pesos e recorrências distintas. Fuja do viés de generalizar tudo em torno de uma única experiência.

  • Seja agente de uma construção coletiva

Para isso, a capacidade de empatia é fundamental. Vale lembrar que essa luta não é só das mulheres e que devemos ter todas essas práticas no nosso cotidiano, exigindo cada vez mais políticas de reparação e respeito.

Lembre-se que a interseccionalidade atravessa várias esferas da nossa vida, como o mercado de trabalho, acesso à educação e direitos básicos de saúde, por exemplo. 


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